13 setembro 2015

Enquanto você cozinha, de Viviane Zandonadi

Eu leio revistas! Sim, leio e adoro!

As minhas preferidas são Casa&Comida, Bons fluídos e Vida Simples. 

E foi nessa última que eu li um texto tão apaixonante sobre a arte de cozinhar, que decidi dividir aqui com vocês!

Para quem gosta de textos longos e incríveis: deliciem-se! 



Comecei cortando cebola, que refoguei com alho e pedacinhos de lombo de porco. Ao fazer lentilha, uma das coisas de que mais gosto é o perfume que sobe da fervura. O caldo, tingido pelas sementinhas cozidas, fica escuro e brilhante. Largo sobre ele uma folha de louro. Ela navega. Enquanto mexo o caldeirão, desato em meus pensamentos os nós de um texto difícil e respiro aliviada: essa receita eu vou comer de colher, no prato fundo.

Trabalho em casa, escrevendo, e passo boa parte do tempo castigando o teclado atrás do fio da meada que às vezes fica todo embaraçado. A cozinha está logo ali, magnética. Sei que se precisar de uma porção de clichês particulares é só destampar algumas panelas. O chiado da pressão me mantém alerta, há o barulhinho bom de uma bebida sendo despejada no copo e, bem cedinho, os preparativos do café da manhã vão deixando vestígios: a chaleira apita, a máquina mói o café, as louças se esbarram. Coisas assim. Às vezes, os dedos titubeiam no meio da tarde e sofro de bloqueio de escrita. Meio que sem método e sem medida, paro de trabalhar e faço carne de panela com batatinhas. Desse jeito, o tempo me parece mais maleável, os pensamentos ganham nitidez e eu, que me sentia acuada pelo tique-taque do relógio, em menos de uma hora tenho o jantar pronto e um novo ânimo para continuar aquele texto, porque afinal cozinhar costuma me ajudar a encontrar saídas no labirinto criativo.

 Dissolve angústias, orienta uma decisão. Não é sempre que dá certo. Depende da inspiração e do que tem na geladeira. Quando funciona, porém, a coisa é um tanto mágica e deixa aquela sensação de completude. “Enquanto eu cozinho, tenho convicção de que posso matar ou tornar doce a vida. Vigio meus pensamentos mais secretos, lavo as mãos com sal se a coisa desanda. Canto cantigas ancestrais de velhas senhoras que cozinharam para a humanidade. A tristeza tempera na proporção de fazer saudade. Não mais”, me disse, em bem temperados termos, a contadora de histórias e autora de livros infantis Penélope Martins.

Acho que quando é assim, o que se faz é um tipo delicado de feitiçaria...

Cozinho, logo penso

No livro A Cozinha das Escritoras (Benvirá), a italiana Stefania Aphel Barzini conta que, desde bem mi - úda, Agatha Christie fazia da cozi - nha seu refúgio predileto. Quando seu pai morreu, em 1901, ela estava com 11 anos. Em vez de ir ao funeral, preferiu passar o dia entre pratos e fogões, aprendendo a fazer pão e frutas cristalizadas, fervendo juntos água e açúcar. Mais tarde, a autora de tantos casos de mistério diria que os melhores momentos para inven - tar uma história eram aqueles pas - sados ao fogão, que cozinhar e escrever eram ofícios muito parecidos.

Para Michael Pollan, cozinhar é uma das atividades mais interessantes e recompensadoras que podemos fazer. “Trabalhar com massa de pão me ensinou a confiar em minhas mãos e em meus sentidos na cozinha e a acreditar no que eles me diziam a ponto de me libertar das amarras das receitas e dos copos medidores. Cozinhar nos situa num lugar muito particular. Cozinhar carrega uma força emocional ou psicológica da qual não podemos ou não queremos nos livrar.” Pollan é um pensador. Autor de vários livros em que trata da relação cultural e física que temos com a comida, acompanha a trajetória dos alimentos e questiona a indústria. É um jornalista-ativista defensor da alimentação saudável. No livro Cozinhar: Uma História Natural de Transformação (Intrínseca), ele explica que no “fim da meia-idade” se deu conta de que preparar o próprio alimento era a resposta para muitas de suas preocupações e questionamentos. “Se cozinhar é, como dizem os antropólogos, uma atividade que nos define enquanto seres humanos – o ato com o qual a cultura surge –, então talvez não devêssemos nos surpreender com o fato de que assistir ao desenrolar desses processos desperte emoções tão profundas.”


Cada coisa em seu lugar

O mensageiro eletrônico faz uma entrega. É de Renata Helena, repórter e estudante de gastronomia. Sabendo que estou investigando o que vai pela cabeça das pessoas quando cozinham, ela sugere que eu assista à série da Netflix “Chef ’s Table”, que acompanha os bastidores de alguns lugares especiais espalhados pelo mundo, perfilando grandes nomes da gastronomia. Na abertura do quarto episódio, Niki Nakayama, do restaurante N/Naka, em Los Angeles, diz: “Cozinhar é a única coisa que, enquanto eu faço, sinto poder confiar inteiramente. Quando monto um prato, minha mente se esvazia por completo. Tudo se baseia no sentimento. Isso deve ficar aqui, isso deve ficar aqui, isso parece bem aqui, isso tem que ficar aqui. Acho que é semelhante àquele estado de meditação ao qual as pessoas podem chegar, quando já não ouvem mais sua mente e só há aquele momento, o presente.
Nesses instantes, uma música toca na minha cabeça e eu não sei como me livrar dela.

Concentrar-se na execução de uma receita colocando-se por inteiro naquele instante e em seu processo é uma oportunidade de acomodar as coisas em seu lugar e de lançar sobre elas um cuidado e uma atenção que permita contar uma história, tomar distância de conflitos internos e dar a eles também um novo olhar. Pergunto para a paraibana Lia Beltrão o que ela acha da minha técnica de “panelaterapia”, amadora e intuitiva, que consiste em fugir temporariamente das obrigações pedindo abrigo na cozinha. “Quando você está trancada no texto e vai para a cozinha, faz uma troca brusca de paisagem. Sai para um ambiente de criação muito mais aberto, mais livre, mais generoso.
É como se aquilo penetrasse no espaço da tua mente e, de repente, naquela abertura vem outra Viviane para olhar aquele texto.” Lia é jornalista. Em Timbaúba, interior de Pernambuco, ela mora no Centro de Estudos Budistas Bodisatva (Cebb Darmata). É uma das três pessoas responsáveis pela cozinha, onde desenvolveu uma oficina que combina práticas de meditação, culinária e ensinamentos do budismo tibetano a fim de ajudar as pessoas a perceberem que na cozinha elas já entram com uma postura-padrão que tende a atrapalhar sua percepção.

Essa visão normalmente é estreita, apertada. Para conhecer e identificar esses padrões, Lia propõe uma primeira etapa de atividades lúdicas em que apresenta a roda da vida, ensinamento tradicional do budismo que relaciona seis visões de mundo associadas a seis emoções perturbadoras: carência, preguiça, raiva e rancor, apego e manutenção das coisas, inveja e competição, orgulho. “A gente vai passando por esses ambientes mentais e entendendo que eles são apenas ambientes mentais. Na cozinha, um mesmo ingrediente pode ser visto de maneiras diferentes, você pode ver uma lentilha e sentir raiva e não querer prepará-la. Ou pode olhar pelo lado da criatividade e do prazer e querer trans - formá-la em um manjar.”

Ao longo da oficina, os participantes alternam culinária e prática de meditação e, à medida que avançam, vão abrindo espaço para uma nova postura. A ideia é conseguir se descolar da visão estreita e adotar outra, mais aberta, ampla, generosa. Por fim, desse lugar em que as emoções perturbadoras se ausentam, percebe-se melhor o que é importante. “Primeiro a gente recua, depois escolhe esses novos olhares e vai se interessando pelo ingrediente, pelo produtor, como as coisas são feitas, sua trajetória. A parte técnica é um pequeno adorno”. Essas pessoas que preenchem o tempo com longas horas em que cozinham, comem, conversam e silenciam juntas, também podem se sentar ao redor da mesa para separar a sujeirinha do feijão em um contra - ponto nostálgico aos barulhos típicos da casa, como o bater dos pratos e panelas – quem se lembra de escolher feijão com a vovó? Eu lembro bem. Imaginemos, pois, que no fim de uma dessas coletas essas pessoas ergam as cabeças, troquem olhares de cumplicidade e ofereçam um feijão inteiro e intacto pelo pensamento do colega naquela hora mágica, aquela hora em que os aromas da cebola e do alho escapam da panela.

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