08 março 2017

A dor nossa de cada dia


Não vejo motivos para comemorar o dia 8 de março com flores ou bombons, não é isso que queremos! Nem foi por isso que batalhamos. A data, que em 1857 marcou a luta de mulheres operárias - que paralisaram suas atividades por melhores condições de trabalho e igualdade - continua atual até hoje e de maneira incansável. Mas foi só depois da tragédia que ocorreu em 1911, quando uma fábrica têxtil de Nova Iorque pegou fogo, vitimando 130 mulheres que morreram carbonizadas, que a data começou a ser oficialmente instituída e "celebrada". Mas vem cá, celebrar o quê, hein!?!

Mais de cem anos se passaram e nós continuamos aqui: lutando bravamente pelo fim da desigualdade entre homens e mulheres, pelo fim do machismo que humilha, maltrata, agride e mata.

Como repórter, por 8 anos eu ouvi, escrevi e coloquei no ar com grandes equipes de jornalismo, centenas (isso mesmo), centenas de histórias tristes e chocantes.E a grande maioria, adivinhe? Eram histórias de mulheres e de meninas que foram abusadas, violentadas, estupradas e mortas. Eu conheci inúmeras delegacias da Mulher no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro. E as histórias, quase sempre se repetiam! Cada vez que uma mulher, uma mãe, uma filha, chorava ao dizer o que sentia, eu chorava junto. Fraqueza?! Não! Dor e medo! Ser mulher é conviver diariamente com o medo. O medo de sair na rua, o medo de um assovio qualquer se transformar numa perseguição, o medo de ficar sozinha dentro do ônibus, de ir à praia para ler um livro e um homem se aproximar e te assediar, o medo dos olhares, o medo do companheiro ser violento, o medo de estar, o medo de ser.

E esse medo se potencializa quando vemos que estamos longe, muito longe de alcançar uma sociedade igualitária, justa e mais respeitosa. Cada vez que um homem tira uma foto do corpo de uma mulher na rua, ele pratica o machismo, ele invade o espaço daquela pessoa, ele vê o nosso corpo como um objeto. E depois disso, vem a cantada infame, a mão - que de "boba" não tem nada - no meio de um bloco de carnaval ou festa, os assédios, os excessos e toda aquela violência que os homens insistem em perpetuar ao longo dos séculos.

Até quando?! Será preciso que nós mulheres tenhamos uma nova geração de filhos e filhas que se respeitem mutuamente? Será preciso a humanidade se reinventar para valorizar o sagrado feminino?!

Na antiguidade, e tô dizendo civilizações milenares, as mulheres eram reverenciadas, o ciclo da mulher era comparado aos ciclos da terra de gerar frutos e alimentos . As mulheres eram protegidas e amparadas, mas o que aconteceu de lá pra cá?! A soberania masculina, a imposição do mais forte sobre o mais fraco, o patriarcado, o poder , a submissão. Foi isso e muito mais, que até hoje nos fazem querem entender porque os homens querem provocar essa dor, essa desigualdade e essa opressão? O machismo é uma forma de dominação, e o feminismo não é seu contrário. Ele é uma luta por direitos iguais.

A escritora Clara Averbuck explica em poucas linhas, e de maneira tão simples e eficaz, o que é o feminismo:

"Feminismo não prega ódio, feminismo não prega a dominação das mulheres sobre os homens. Feminismo clama por igualdade, pelo fim da dominação de um gênero sobre outro".

É isso, é tão fácil de entender! Queremos que os homens respeitem as nossas escolhas, os nossos direitos. Queremos companheiros que estejam lutando ao nosso lado e não perpetuando a sexualização de nossos corpos, queremos trabalhar tanto quanto eles, e ter o salário equiparado. Queremos dividir as tarefas domésticas. Queremos amor, queremos amar.  Afinal, nessa luta,o feminismo é a forma que encontramos de combater a dor nossa de cada dia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário